segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Alice nº 2


A paz cotidiana via ondas longitudinais penetrava seus ossos vagarosamente, mas, por um breve instante, houve uma insatisfação quase inconsciente do menino para com a situação. Haviam sons, mas não haviam imagens, e num sobressalto ele se deparou com a ganância de sua vida.

De um táxi que recém estacionara saiu apressado um homem alto, bonito, com camisa, colete e um ar quase intemperante. Esbarraram-se, ele e o menino, e sua maleta veio aos pés do Alice. O homem juntou a maleta, pediu desculpas e seguiu seu trajeto. E Alice ficou inerte, pois a inquietude das imagens insatisfatórias acabou ali, quase no mesmo instante em que apareceu.

Junto a maleta havia caido um cartão com o nome e o endereço do tal homem, um cartão esquisitíssimo por sinal. Alice tomou-o em mãos, leu e decidiu seguir o homem.

Duas quadras e tamanha a surpresa do menino vendo tal porte entrar numa enorme lata de lixo de beco e fechar a tampa. Embora assustado, talvez até com medo de um suposto insano, a curiosidade dele era tanta que resolveu abrir a tampa do lixo e perguntar o que aquele homem tinha na cabeça.

A tampa foi aberta, mas o homem havia desaparecido.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Alice n° 1

Certain Street, 14:32, uma velha mania de caminhar ao longo daquela rua. A rua em que se encontra diariamente "depositada" a quase inerte Frota-Tiê. Trinta e oito carros sintonizados na única rádio da cidade, que deliberadamente anunciava uma série de coisas nada importantes pra ele.

Alice ouvia todos os dias as músicas, propagandas, anúncios e tudo o mais que acontecia na rádio. Mas não simplesmente ouvia, pois isso faria em casa, ele ouvia a rádio com falhas periódicas. E um grande, complexo e suave prazer lhe era concedido aos ouvidos quando ouvia o som abafado dos auto-falantes dos táxis, interrompidos por passos dados em uma vaga onde carro nenhum estava estacionado, lhe permitindo sorver ondas sonoras como uma erupção de sensações maravilhosas.

Não eram simples buzinas, ruídos, meados de conversas alheias, gorjeio de pombas, coisas fúteis. Cada som lhe trazia paz de uma forma grandiosa e única, e por isso, naquela rua, ele caminhava todos os dias.

domingo, 16 de novembro de 2008

Se se vive sonhando, não se vive.

A conquista palpável, saborosíssima, nas mãos, é tão incrível, que um sonho, mero sonho, por mais gostoso que seja, jamais transporia a sensação física de, por exemplo, comprar e dirigir um carro. Sonhar é ótimo, qual quer pessoa já se pegou sonhando acordado ao menos uma vez, mas sonhar é fácil demais. Qual quer um pode sonhar tudo, qual quer um pode sonhar com um beijo, no entanto, conquistar e principalmente beijar, sem dúvida nenhuma, é imensuravelmente mais prazeroso que um sonho.

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Outro Platônico

ele é do tipo que não faz ar nenhum
não quer chamar a atenção, mas tem um charme inenarrável
tem a pele alva, da cor dos envergonhados
e os olhos maudosos porém doces

eu sonho em deixar rosadas aquelas brancas faces
com uma meia dúzia de besteiras sussurradas no ouvido dele
e olhar bem de pertinho seus olhos venenosos, generosos
brilhantes ao me ter por perto, exprimindo o aconchego que te proporcionaria

ah, se te pego
lambo teu corpo e me deleito na tua barba
me perco na tua pele e pêlos entre tuas pernas

e sinto a pontinha do teu nariz tocar minha nuca
o dono da forma mais graciosa e delicada que já vi
ofegando em meu pescoço, como se urrasse de prazer singelamente

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Efêmero Eterno

é como se eu já estivesse morto
(em uma tentativa frustrada você conseguiu me matar)
sem rasgar minha pele
sem uma gota de sangue sequer

era pra você estar em paz agora
pisando nas nuvens lilás-amora
num sono profundo e tranquilo
deixando, contudo, aquilo

a vida vadia e bêbada
sem que ninguém percebesse
o quanto és vazio por dentro

aquele que mais tentou fazer você sorrir
não passaria de um cadáver em suas mãos
outro cadáver

como daqueles que sonharam tão alto
e acabaram caindo de seus sonhos

eu queria o melhor pra você
e sabia, só eu te escutava
teimei não querendo fazer
mas matando-o tudo acabava

rasgando seu peito no meio
a dor da sua vida eu findava
não fosse eu, tu, um receio
e o amor que a gente se amava

você me conhece de mais
e sabe cada ponto fraco
sabe o pior e o melhor jeito
de me deixar a seus pés

ainda assim
quis ver meu sangue lavar suas mãos
quis ver meu sangue

embora eu te amasse comigo
sozinho seria igual
e não me faltava coragem
nas mãos eu tomei um punhal

é como se eu já estivesse morto
(em uma tentativa frustrada você conseguiu me matar)